quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O Enigma da Mente e a Conservação de Energia

A vida é um mistério em todos os aspectos. Mesmo conhecendo perfeitamente as leis científicas da reprodução animal e vegetal – biológicas, derivadas, naturalmente, da física e da química – e como definitivamente evoluiu a vida na Terra, ainda existem processos inexplicáveis pelo nosso conhecimento. Claro que é sempre complicado falar em lacunas e fatos inexplicáveis, pois sabemos que o conhecimento científico demanda tempo para evoluir. Mas a minha intenção não é, obviamente, questionar o conhecimento humano ou menosprezá-lo.
Durante o longo tempo que fiquei sem atualizar este blog, estudei a fundo diversos temas que sentia necessidade de aprofundar, como genética e epigenética, nutrição, processamento cerebral, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Quanto mais entrava a fundo nesses temas, mais me era exigido do meu conhecimento físico, filosófico e, porque não, espiritual? Talvez falar em “conhecimento espiritual” seja um abuso para uma página que foca a ciência acima de tudo, mas me pergunto o porquê disso todos os dias.
A ciência, por definição, deve zelar pelo conhecimento e desvendar as origens da humanidade e do universo. Bom, tais origens se mantêm escondidas até hoje.
Muitas sociedades postularam deuses para explicar aquilo que não tinham capacidade de compreender, o que perdurou na filosofia durante muitos anos, impregnando nosso conhecimento e retardando o desenvolvimento da ciência. Porém isso não significa, de maneira nenhuma, que qualquer cultura dessas esteve errada em suas predições. Significa apenas que, acomodadas, as grandes civilizações através dos séculos não se preocuparam em estudar os fenômenos geofísicos e biológicos observáveis.

Do site: http://eternosaprendizes.com
Recentemente, na astronomia, houve um postulado: a existência da energia escura. A energia escura compõe a parte do universo que explicaria a quantidade de massa (energia) necessária para que o universo se manifeste da maneira que observamos. Nunca foi detectada direta ou indiretamente, mas sua existência é aceita na ciência tanto quanto os conceitos eletromagnéticos e as partículas associadas, os quais foram substancialmente testados, detectados e comprovados. Pergunto-me novamente qual o problema do postulado da existência de Deus, se muitas culturas não O usam como explicação para aquilo que não conhecem, mas apenas acreditam na existência de uma inteligência superior a tudo que conhecemos e que tenha “projetado” o universo.
Vejo largas críticas às filosofias deístas que atacam grosseiramente a imagem humana de Deus. Ora, naturalmente, as culturas às quais me refiro repudiam fortemente essa imagem também. São culturas amplamente espiritualistas que pregam a existência de corpos além do material, corpos que seriam responsáveis pela nossa inteligência e consciência. Segundo os grandes sábios do passado, esses corpos seriam a essência do ser humano, a inteligência e a individualidade. Dado isso, o cérebro e o corpo humano num geral são apenas máquinas, a interface entre o verdadeiro Eu e o mundo material. Seria possível falar cientificamente sobre essas hipóteses?
Há alguns anos, os físicos L. Bass e Fred Alan Wolf,
“observaram que para que a inteligência possa operar, o acionamento de um neurônio tem que ser acompanhado de numerosos neurônios correlatos, a distâncias macroscópicas – até 10 cm, que é a largura do tecido cortical. Para que isso aconteça, observa Wolf, precisamos que correlações não-locais (à maneira de Einstein, Podolsky e Rosen, claro)1 existam no nível molecular de nosso cérebro, nas sinapses. Dessa maneira, até o pensamento comum depende da natureza de eventos quânticos.”2

Fred Alan Wolf, Ph.D, palestrou no TEDx, escreveu diversos livros de divulgação científica e filosofias , como "Parallel Universes", "The Yoga of Time Travel" e criou os quadrinhos "Doctor Quantum". Do site: http://elkarneclausen.files.wordpress.com
Para que a não-localidade esteja presente no processamento cerebral, as causas das ativações dos neurônios relacionados devem estar entrelaçadas. E, como essa propriedade só se manifesta na escala quântica, esta causa é quântica. Isso significa que o controle da inteligência humana tem sua origem na escala sub-atômica (elétrons, prótons, quarks, etc). Acontece que, até onde a física pôde investigar, elétrons e prótons não possuem informação codificada.
A transferência de informação na eletrônica se dá através de elétrons, claro, mas como essa comunicação se opera? Utilizamos o sistema binário em toda a tecnologia, ou seja, codificação em 0 ou 1 (0 volts ou 5 volts, geralmente). Então, essa tensão gerada produz correntes de acordo com os elementos do sistema, o que engloba um sem número de elétrons transferidos para cada pulso de tensão. A informação, portanto, é codificada como existência ou ausência de tensão, não havendo, dessa maneira, necessidade de se usar este ou aquele elétron. As propriedades das partículas não se alteram em todo o universo, só podemos alterar sua energia (números quânticos principais e secundários), sua posição e seu spin.
Então onde estaria armazenada a informação que permite ao cérebro entrelaçar partículas e definir quando os estímulos acontecerão? Devem, naturalmente, existir em um organismo mais complexo. Fazendo um paralelo com a eletrônica, deve haver um software que defina como o hardware operará. No ramo tecnológico, o software está gravado nas memórias físicas, definindo como outras partes físicas operarão para que diferentes softwares possam ser acessados. Ou seja, o software é uma programação mecânica que age sobre a própria essência, o hardware. Quem opera inteligentemente uma máquina é nada mais que um ser humano, o que nos leva a atualizar a relação hierárquica que definimos entre programa e dispositivo eletrônico físico.
O que acontece, de fato, ao digitarmos um texto como este, é que decidimos quais trilhas semicondutoras receberão o estímulo “um” e quais permanecerão no “zero”. A fonte de energia do computador mantém latentes as possibilidades de estímulos e nós, quando fechamos um contato – a partir de uma tecla, por exemplo – decidimos o fluxo de energia.  É aí que entram os diversos corpos metafísicos postulados por sábios há milênios em diversas culturas.

Do site: http://reportersombra.com
Espiritualistas dizem que há um espírito em cada ser. Na verdade, que cada ser é um espirito que recebe a dádiva da vida material, um corpo, com o intuito de desenvolver sua mente, sua essência, e voar cada vez mais alto numa escala espiritual, aparentemente em outras dimensões do espaço físico. Tudo parece uma linda história de ficção e, na opinião de muitos, não passa de superstição religiosa. Porém, nos últimos anos, a ciência vem se enchendo de grandes nomes que apoiam as teorias metafísicas, comumente apelidadas de pseudociência.
Um dos grandes argumentos que ataca essas teorias é baseado no princípio da conservação de energia3. Como se sabe, toda energia inserida em um sistema deve ser dissipada, transformada ou transferida, mas nenhuma parcela dessa energia pode desaparecer ou ser criada. Esse postulado da física foi comprovado em 100% dos experimentos desde o início da ciência metódica e ganhou muita força a partir da teoria da relatividade geral de Einstein principalmente, por ter sido explicado de maneira mais pura e bem elaborada.
Os que atacam afirmam que, se houvesse qualquer interação entre espírito e matéria, poderíamos captar a energia que flui de um ponto a outro do sistema. Essa concordância seria, definitivamente, irrefutável se houvesse apenas a maneira “energética” de comunicar dois corpos. O que quero expor com esse comentário? Com certeza, não estou desafiando o princípio da conservação. Se voltarmos à analogia da interação operador-computador, poderemos explicar melhor as possibilidades.

Do site: http://desperteconsciente.blogspot.com.br/

Quando apertamos a tecla do nosso laptop e fechamos dois contatos – definindo o caminho por onde o pulso de tensão será transmitido – não inserimos energia extra no sistema eletrônico. Dissipamos, é claro, energia térmica e sonora, através do choque das partes móveis, que foram deslocadas pela energia mecânica transmitida de nossos dedos. Porém, essa energia não é captada pelo computador e é suficientemente pequena para não ser detectada. Portanto, se qualquer sistema atua em nosso cérebro com o papel de “fechar contatos” (em alguma parte que ainda não conhecemos), ativando um neurônio, não perceberemos qualquer fluxo energético. Nesse suposto caso, a fonte de energia se encontra dentro das células, é produção própria através de “alimentos” captados do corpo humano, faltando apenas um gatilho para o início de uma operação.
As hipóteses metafísicas, se unidas às teorias físicas, abrem espaço para a dedução de um Deus onipresente. Se partículas subatômicas podem estar entrelaçadas e atuarem de maneira definitiva na nossa consciência, porque não poderia o universo ter uma consciência também? Se a consciência for uma propriedade de algo além das partículas, nada impede que organismos muito mais complexos exibam qualquer inteligência, naturalmente, superior à nossa.
Concluindo então a nossa analogia, temos o hardware como cérebro, o software como sistemas corporais mecanizados e o homem que opera a máquina como o espírito, o que decide e dá vida e inteligência à matéria. Como diz Goswami em seu livro O universo autoconsciente, a famosa frase de Descartes – penso, logo existo – pode ser alterada para: escolho, logo existo.



Notas:
1 Paradoxo EPR (Einstein, Podolsky e Rosen). Estas três mentes brilhantes questionaram a mecânica quântica desde a sua concepção por acharem impossível que uma partícula pudesse se comunicar com outra instantaneamente. Duvidaram de muitos conceitos dessa nova ciência e lutaram fortemente contra eles. Vale apena pesquisar o tema.
2 Goswami, Amit – O universo autoconsciente. Sugiro a busca pelos trabalho pessoais de Wolf e Bass.

3 Conservação de energia é, talvez, a maior teoria da física. Totalmente comprovada, a ideia garante que não há criação ou desaparecimento de energia em todo o universo. Isto é, toda a matéria e energia foram criadas no início do universo e nada desde então se perde. Todos os sistemas são energeticamente conservativos, de modo que toda energia que é inserida no sistema deve, com toda a certeza, aparecer como reflexos em outros pontos do mesmo sistema.

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